Tuesday, December 29, 2009

Respire fundo


Entendo agora o que eu vim fazer aqui do outro lado "do outro lado" do mundo, sim, é onde eu estou... em Perth... isolada da civilização, definitivamente.
Perth 'e uma "cidade grande". Para o meio de lugar nenhum é realmente grande! O centro da cidade tem três ruas principais e fica a quinze minutos da minha casa (o que nunca aconteceu antes...digo, eu morar perto do centro de alguma coisa).
Fora isso, faz um calor horrendo de noite que combina muito bem com os barulhos da porta do meu quarto no meio da madrugada, aqueles que fazem qualquer ser humano querer ficar bem acordadinho para ter certeza de que nao abriram a porta do inferno enquanto você cochilava.
De resto, as pessoas são muito legais, são tão gentis que quem vem de um lugar onde generosidade custa um favor aqui e outro ali que nem eu, fica achando que deve ter alguma coisa errada com a água do lugar.
Mas isso é normal para eles... se ajudar, receber bem as pessoas novas, amar cuidar do jardim, que é minha mais recente descoberta: a casa que eu moro tem um jardim simpático com uma parreira, três tinas com pés de limão siciliano, quatro ficus podados e um gramado semi esturricado pela estação, onde o James, meu flatmate, e os amigos dele tomam cerveja até cair a cada dois ou tres dias. Debaixo da parreira fica a mesa onde fazemos a maior parte das refeições e de onde eu tenho meus melhores momentos de ócio criativo ou nem tanto.
Acho que faz muito tempo que não sabia o que era curtir uma casa... aproveitar a luz que entra no quatro para escrever, desenhar, colocar as idéias no lugar.


Eu achava que trabalhar no Guillaume tinha feito um bom estrago nos meus pés e em outras partes do meu corpo que não voltaram pro lugar, no entanto, não tinha percebido nada até o João falar no meu picnic de despedida " nessa idústria (hospitality) é muito fácil você perder a paixão quando não está no ambiente certo, é muito rápido (e estalou os dedos) para você se perder".
E foi exatamente o que tinha acontecido comigo. Eu tinha perdido a paixão. Não tinha percebido que eu tinha perdido a fé no meu trabalho, pior, perdido a confiança em mim mesma, tanto que estava a ponto de jogar tudo para o alto e voltar a ser RP... (que vamos combinar...putz melhor morrer de catapora!). Estava tão sem confiança que um emprego de vendedora de enciclopédia era minha mais nova meta de vida.

Acabei indo para o Brasil para passar boa parte das minhas férias na cozinha da minha mãe. Estranhamente, as grandes transformações culinárias da minha vida acontecem naquela cozinha, esparramadas na pia de granito (que mal sabe ela, é ideal para arte em chocolate!) e naquela mesa de 50 mil anos e tampo de vidro que eu e minha irmã provavelmente vamos nos estapear se um dia ela virar herança.
Durante duas semanas eu me muni do amor pela minha família e principalmente pela força do grande momento da vida da minha única irmã, para dar a ela o meu presente! Para entregar, não um eletrodoméstico embrulhado, mas sim o presente de ser presente como companheira do grande acontecimento da vida dela: o casamento!
E Deus, como ótimo empreiteiro que é, magnanimamente, incansavelmente, pacientemente se encarregou de me mostrar que existe um lugar no mundo para mim que é dentro de mim mesma e pode montar acampamento em qualquer parte do mundo.
Quando meu tempo lá estava para terminar, mais uma etapa começou.
Entao, subi num aviao para encarar o patisserie lounge do Azure. E foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Encarei o trabalho como um oportunidade de voltar a andar e eu caminhei(com as minhas proprias pernas). Este foi meu presente de Natal.
Acho que isso vale para qualquer pessoa... esse tipo de lembrete sutil de que é muito fácil perder o gosto pelas coisas se a gente não está no lugar certo. Mas seja qual for o caso, nenhum dinheiro, status ou quiz de tabuleiro vale a sensação de estar em paz com o mundo e o mundo em paz com você. Quando existe paz então, é batata! É como se os quatro dias que levam para fazer marron glace passassem num instante e você está pronto pra descascar as castanhas de novo!

Quando a gente olha as coisas de fora, muito do que a gente empurrava com a barriga por não saber como sair fica fácil de resolver e ai, vem aquela vontade mor de se chutar porque " como foi que eu deixei isso tomar conta de mim? como foi que eu arrastei isso por tanto tempo??? Por causa de uma geladeira?" ... qualquer que seja o eletrodoméstico da sua preferência, ele nao vale a sensaçao impagável de chegar em casa, chutar os sapatos pro lado e fazer o que der na telha.

Olhar de fora é tão bom... é o melhor lugar para assistir a novela das oito que é a nossa vida... é quando a gente diz "meu!!!!!!!!!! como você não enxerga que ela só se casou com você por dinheiro e que quem gosta mesmo de você é filha da Odete que limpou o seus sapatos com as lágrimas de um esquilo????" - "que burro!"

E essa clareza ajuda a tomar decisões importantes no melhor estilo break through, aquelas que vc decide dar o tiro de misericórdia e terminar um namoro que já azedou ou dar uma chance para alguém que não é bem seu tipo.
A vida tem é urgência que a gente aprenda as lições a tempo de viver as novas experiências de amanhã. Ela sempre dá um jeito de fazer o novo chegar. É preciso entender que o bom de viver é estar vivo!

A minha experiência me diz que o maior presente que a gente pode dar para o mundo é a resolução de si mesmo.

Minha prece é que esse clima de resolução alcance mais pessoas. Que existam mais finais felizes e de boa ventura para o que está por vir. Que exista vontade e que aquilo que está perdido encontre seu lugar no mundo. A gente tem sorte!... só de respirar já estamos ganhando!Vambora crescer porque nenhuma confusão dura pra sempre!

Respire fundo porque esse sopro é fortuna disfarçada de oportunidade.

1 comment:

Thaís said...

Feliz que vc encontrou o caminho, Cy!!
... tbm estou na busca do meu...

Bjo gde pra vc!!