Friday, August 14, 2009


Comecemos pelo começo...

Eu estava procurando trabalho pra completar as benditas 600 horas do meu industry placement e por um mês procurei como uma insana, apliquei para todos os tipos de trabalho, a ponto de pirar na batatinha. Estava tão estressada que liguei pra Má para perguntar onde eu poderia comprar um floral para estresse. Por uma semana dormi com dor de estômago de nervoso. E quando cheguei na farmácia, comprei não apenas um floral, como praticamente todos os produtos calmantes disponíveis nas prateleiras.

Assim que eu tomei o floral, pá! Da noite para o dia recebi quatro ofertas de emprego seguidas (e fiquei pensando... cara, esse neg'ocio funciona que é uma beleza!!!).


No meio das ofertas tinha um e-mail do meu chef da faculdade falando "Mamori, se você ainda estiver procurando trabalho, estão procurando gente no Bennelong, na Opera House, procure pelo chef Guillaume Brahimi, ele é um excelente chef e é muito conhecido na Austrália".



Três coisas: eu nunca tinha ouvido falar em um restaurante chamado Bennelong na Opera House, muito menos em Guillaume Brahimi, muito menos ainda que ele era conhecido em algum lugar e achei até que fosse um desses exageros de chefs franceses querendo puxar a sardinha para o lado deles.



Então, liguei para minha enciclopédia ambulante, o Dervish... "Dervish, você conhece um tal restaurante chamado Bennelong, tem um e-mail do chef Brioche me falando que estão procurando gente lá".



"Are you kiddiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiing??? Claro que conheço, é um dos melhores restaurantes da Austrália, não fica melhor que isso!!!" Liga agora!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Está entendendo??? Agora!!!


E liguei e mal sabia que essa ligação mudaria minha vida.


O chef me pediu para ir vê=lo no mesmo dia.

Eu fui... Cheguei lá, me recebeu um português que mais tarde descobri que era o head chef, ou seja, ele é o poder! E o poder fez calar os liquidificadores para me explicar as seções da cozinha que pareciam gigantes e assustadoras.

Enfim, no dia seguinte, eu tinha um trial. Nao fazia idéia do que ia acontecer, afinal, eu tinha Perth na mão, com um chef que mais parecia a reencarnação de São Francisco que um chef de tão bondoso que era.

Trabalhei por 12 horas naquele dia e no final da noite o head chef me perguntou se eu tinha gostado e queria voltar. Eu falei "Claro!" Afinal, quando te oferecem um emprego no tal do Bennelong, você não pensa duas vezes, simplesmente vai e aceita.

Eu aceitei esse trabalho e com dor no coração, comuniquei o chef de Perth da minha decisão que como todo bom santo me deixou as portas abertas.

Na mesma semana trabalhei sexta e sábado e na semana seguinte, mais cinco dias seguidos, mais de 12 horas por dia a ponto de não sentir mais os pés. Minhas mão ficaram calejadas, queimadas, com bolhas, e meu corpo inteiro doeu.

Como sou a garota nova, a australiana que me da os comandos rosnou e latiu para mim porque não sei fazer ainda tudo com perfeição de um restaurante 3 hats. Uso minha casa praticamente so para dormir e tem horas que me dá medo só de pensar em voltar ao trabalho.

Minha família está orgulhosa, assim como todos os meus amigos... mas a verdade é que só eu sei o que meu corpo e mente passam nessas horas de trabalho pesado, mais pesado que o de um pedreiro. E que no fim das contas o restaurante ter três hats ou nenhum hat não muda o que eu sinto.

Aprendi a passar praticamente o dia todo sem conversar com ninguém. A ficar calada e só obedecer, dizer sim e pronto, mesmo que não seja minha culpa, engulo e falo yes chef, yes, sir, yes mamn.

Este está sendo como um processo dos alcólicos anonimos, um dia de cada vez. Antes eu amava ver a Opera House... hoje me dá tremedeira.

Trabalho sem reclamar. Estou admirada com o que meu corpo consegue aguentar. Eu agradeço ter trabalho, porque sei que a graça divina deve ter um plano maior do que a minha compreensão no momento.

Não consigo contar isso de uma forma engraçada. Só posso defender os trabalhadores de cozinha que pegam no pesado como a gente. Sei que existem lugares em que mesmo que seja duro, as pessoas cantam e dão risada e relevam os erros. Lá, onde estou, perdoam meus erros, mas nunca relevam.


As pessoas não têm idéia do que se passa na cozinha de um restaurante e não estou falando de uma cozinha qualquer, estou falando de uma cozinha onde existe dinheiro e infra-estrutura: as pessoas não sabem que quando alguém reclama, somos humilhados, xingados e agredidos. Trabalhamos mais de doze horas por dia, com salários baixos e sem intervalos para ir ao banheiro, comer numa velocidade razoável ou respirar ar puro. Isso é lei comum na maioria dos restaurantes que existem por aí, inclusive no Brasil. E todo mundo diz que o sistema é assim e que a gente precisa se adequar a ele.

Eu emagreci. Acabei com meus band-aids. Não sinto raiva, cada minuto é precioso demais para gastar com raiva.



Nunca mais vou olhar um restaurante da mesma forma, não reclamo mais de atraso, de espera de marca de dedo no prato.


Não trato ninguém mal, não desconto nos outros, não respondo e continuo gentil. Como disse Chico Xavier, "o ódio que julga ser a antítese do amor, nada mais é do que o amor que adoeceu gravemente" e os doentes, necessitam de cuidado.


Preciso espalhar no mundo a idéia de que precisamos ter compaixão na 'prática, muitas vezes, aquilo que é da maneira que é, não necessariamente está certo e a gente tem que ser a mudança que quer no mundo.


Essa é minha experiência e minha percepção. Não se trata de dó ou piedade.
Ainda estou me acostumando com tudo isso, com essa realidade que me arrebatou por inteiro.
Quando chegar minha hora de decidir, quero fazer do ponto de vista de alguém que faz isso com consciência.


Achei que esse tipo de absurdo cotidiano fosse simplesmente um drama de filme, mas talvez o filme tenha inspirado a realidade e francamente, não tenho muitas palavras para expressar o que eu presencio por lá.


Rezo o salmo 90 todos os dias para ter forças e persistir. Se estiveres em apuro, agarra-te à tua fé.


Você que habita ao amparo do Altíssimo,e vive à sombra do Onipotente,
diga a Jave: "Meu refúgio, minha fortaleza,meu Deus, confio em ti!"
É livrará você do laço do caçador,e da peste destruidora.
Ele o cobrirá com suas penas,e debaixo de suas asas você se refugiará.O braço dele é escudo e armadura.
Você não temerá o teror da noite,nem a flecha que voa de dia,
nem a epidemia que caminha nas trevas,nem a peste que devasta ao meio-dia.
Caiam mil ao seu ladoe dez mil à tua direita,a você nada atingirá.
Basta que olhes com seus próprios olhos,,para ver o salário dos injustos,
`porque você fez de javé o seu refúgio e tomou o Altíssimo como defensor..
A desgraça jamais o atingirá e praga nenhuma vai chegar à sua tenda:
pois ele ordenou aos seus anjosque guardem você em seus caminhos.
Eles o levarão nas mãos,para seu pé não tropece numa pedra.
Você caminhará sobre cobras e víboras,e pisará leões e dragões.
Eu o livrarei, porque a mim se apegou.Eu o protegerei, pois conhece o meu nome.Ele me invocará, e eu responderei.
Na angústia estarei com ele.Eu o livrarei e glorificarei.
Vou saciá-lo de longos diase lhe farei ver a minha salvação".

1 comment:

Thaís said...

Com certeza que não é nada fácil, mas a gente tira nossa lições...
Aprendi o valor daqueles míseros trocadinhos no fim de um expediente exaustivo, aprendi que os nem sempre a falta de um sorriso no rosto significa que a pessoa te odeia... aprendi a carregar 20 pratos de uma vez + talheres + copos e ainda ter que parar + de 5 minutos pra atender cliente e ter que decorar o pedido mesmo com o seu braço tremendo de tanta dor... tbm aprendi a não reclamar da demora e nem do prato que não veio tão lindo quanto no cardápio... enfim... dizem por ai: "vivendo e aprendendo"... e hoje eu vejo que a experiência me valeu mais do que eu poderia imaginar que valeria! A vida te prepara coisas lindas, MaMori... mas há sempre uma escalada árdua pra poder contemplar um belo pôr do sol do topo de uma bela montanha, não é mesmo?! TE AMO!! <3